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Mês da Lesão por Pressão

Eu ainda era estudante e cursava o quinto semestre da graduação em enfermagem. Não tinha experiência na área e, jamais esquecerei das sensações que me assolaram quando me deparei pela primeira vez com uma Lesão por Pressão. Fui envolvida por um misto de surpresa, angústia, pena e desconforto que me fizeram congelar por uns segundos. Em meio a uma face triste, marcada pelo tempo, os pequenos olhos brilhantes e silenciosos daquela senhora acamada me espreitavam meio de lado, enquanto eu pensava em como um corpo, já tão emagrecido e sem forças, poderia se recuperar. Naquele machucado tão profundo, cabia muito além da minha trêmula mão de estudante... cabiam dúvidas, questionamentos, inquietações.

As lesões por pressão são avassaladoras. São silenciosas, doloridas, profundas, comprometem muito mais do que a pele, seus anexos e estruturas adjacentes. Elas comprometem o plano terapêutico e demandam uma nova rota de cuidado, que muitas vezes, pode prolongar internações, exigir o uso de outros medicamentos, representar o risco de novas complicações, imputar limitações e danos irreversíveis.

Painéis de especialistas do mundo todo analisam e revisam periodicamente as melhores evidências disponíveis para avaliação, diagnóstico, prevenção e tratamento dessas lesões que são definidas como uma injúria resultante de uma pressão isolada ou de uma pressão combinada com fricção e cisalhamento, e que podem ser categorizadas de acordo com o nível de comprometimento dos diferentes tecidos.1

Com a certeza de que a terapêutica para recuperar uma pele lesada é altamente desafiadora, já que precisa considerar fatores intrínsecos e extrínsecos, a prática clínica exige que o olhar do profissional seja direcionado para o que antecede essa injúria. Um dos primeiros passos é subsidiar a assistência preventiva e a dinâmica de cuidado efetiva a partir da identificação de fatores de risco, que pode ser realizada por meio da aplicação de escalas preditivas de avaliação, disponíveis em vários modelos validados e confiáveis para uso na população brasileira.

A prevenção das lesões por pressão é multifatorial. Precisa contar com profissionais qualificados e engajados nessa causa e envolver a minimização dos fatores etiológicos desse tipo de ferida. A inspeção rotineira da pele, o correto reposicionamento e mobilização precoces e o uso de superfícies de suporte são estratégias de minimização da pressão, com alta força de evidências científicas. Uma seleção criteriosa dos materiais que promovam a proteção dos tecidos, permitindo troca gasosa e a remoção sem traumas (como o uso de filmes transparentes, fitas adesivas microporosas, fitas siliconadas, protetores cutâneos, entre outros) são recursos fundamentais para redução da força de fricção e cisalhamento e proteção da pele da exposição à umidade. Enfim, as recomendações preventivas nunca devem ser finalizadas sem incluir o impacto do monitoramento nutricional, da hidratação da pele e da educação do paciente e seus cuidadores diretos.1

É complexo. É um grande desafio. Exige estrutura, recursos, foco no indivíduo e que se faça bom uso de conhecimento, empatia, raciocínio clínico... mas é possível e, atualmente, temos muitos exemplos de profissionais inspiradores e protocolos de prevenção bem gerenciados.

Que aquela senhora que, sem saber, marcou minha vida com sua dor e com uma lesão por pressão na qual cabia a minha mão, hoje se sinta representada por um mês que se propõe a tratar essa causa, que mobiliza a importância da prevenção das Lesões por pressão e a busca incessante pelas formas de evitá-las.


Por Elizabete Cazzolato Ferreira.



1. European Pressure Ulcer Advisory Panel, National Pressure Injury Advisory Panel and Pan Pacific Pressure Injury Alliance. Prevention and Treatment of Pressure Ulcers/Injuries: Quick Reference Guide. Emily Haesler (Ed.). EPUAP/NPIAP/PPPIA: 2019